Como Nossos Comportamentos Estão Mudando na Era COVID-19

Estudiosos nos contam e a história nos mostra que há 3 elementos capazes de acelerar a história: guerra, revolução e epidemias. E muito embora o momento vivido agora traga consigo morte, ansiedade, depressão, dor, desemprego, crise econômica, entre outras consequências, o que estamos vivendo agora é um momento único do nosso tempo e que será lembrado e registrado nos livros de história que nossos netos e bisnetos irão estudar.

O comportamento da sociedade passa por mudanças desde que o mundo é mundo, e nossa relação com consumo, trabalho e relações humanas se transformou completamente desde o ~ famoso advento da internet ~ (e que lembremos, é fruto do auge Guerra Fria). E agora tais mudanças ganharam o maior boost dos últimos tempos: o nosso nada queridinho COVID-19.

Em pouco mais de dois meses o mundo não apenas se viu de cabeça pra baixo, mas também obrigado a reinventar sua maneira de trabalhar, fazer negócios, se relacionar com família e amigos, paquerar, comer e cozinhar, comemorar… o que inevitavelmente também mudou a dinâmica que nos relacionamos com a compra de produtos e serviços.

E apesar da nossa história evolutiva social, política, climática ou genética ser repleta de mudanças, um fato curioso sobre nós seres humanos é a tendência natural de sermos resistentes às mudanças bruscas. Somos capazes de aguentar, sem notar, uma situação que vai ficando um pouquinho pior a cada dia, mas ficamos completamente sem saber como agir a uma situação que nos chacoalha da noite pro dia e imediatamente confabulamos os cenários mais trágicos.

Há sempre quem ouse dizer “-ah, mas agora tá uma bagunça né? antigamente que era bom”. Particularmente, eu preciso discordar da afirmação. Isso acontece porque nossa cabecinha é programada para lembrar de coisas ruins, seja como mecanismo de defesa e sobrevivência, seja porque é mais fácil mesmo. É muito difícil reconhecer coisas boas quando elas viraram nosso “statement”. Antigamente, quando o mundo “era bom” registramos taxas de mortalidades infantil altíssimas, sarampo, poliomielite e difteria eram um completo terror, fome e inanição já assolaram nosso passado. A história é longa.

Entretanto, Leandro Karnal, historiador brasileiro, cita em uma entrevista para CNN que na “tradição histórica, depois de um período de recolhimento e morte, há uma grande explosão de vida”.  E a história está aí para nos contar que as piores pestes, guerras e outras tragédias da humanidade nos trouxeram mudanças e invenções que transformaram nossas vidas.

E otimistas por natureza que somos, trouxemos aqui algumas dessas mudanças dos nossos hábitos de consumo e comportamento que essa pandemia tem, nada gentilmente, nos obrigado a fazer e que podem sim transformar nossas vidas para melhor.

Alerta importante para seguir a leitura: nossa proposta não é fechar os olhos para nenhuma das consequências trágicas, que infelizmente ainda não tem data pra acabar, romantizar a quarentena ou dizer que não é tão grave assim. Temos ciência do momento turbulento que estamos atravessando e queremos apenas organizar os pensamentos e trazer insights do que já estamos vendo acontecer. Bora lá?

Consumo online – E-Commerces em alta

Dar aquela passeadinha no shopping no final de semana ou a escapada na hora do almoço pra comprar aquela blusinha fofa da promo já não é exatamente nossa (melhor) opção. E mesmo serviços essenciais, como ir ao supermercado ou à farmácia ainda implica em riscos de contaminação. Por isso, estamos cada vez mais usando e abusando do comércio online, seja para fazer compras de produtos ou serviços. Até os mesmos os restaurantes, que ainda nem sonhavam com a opção de fazer delivery, rapidamente disponibilizaram essa opção . Isso faz com que os negócios, pequenos ou grandes, necessariamente possam aderir a nada nova expressão “transformação digital” e, assim, cada vez mais dependemos da internet e os meios digitais para existir no mundo business, independente do nosso segmento.

Só para se ter uma ideia, a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico registra aumento de até 180% em transações durante a pandemia, principalmente na compra de alimentos, bebidas e saúde. A análise desses produtos é assunto para outro post, mas se alguém tinha dúvidas que marketing digital funciona, hoje dificilmente vai poder viver sem ele para continuar sendo competitivo no mercado.

Um bom exemplo de quem já se adaptou e colocou um novo negócio em prática é do guru do marketing Gary Vaynerchuk, que lançou essa semana o VaneyCommerce, uma consultoria especializada para e-commerces focada em desenvolver marcas sustentáveis.

Como isso muda nossa vida pra melhor?

Particularmente acredito que vamos (ainda mais) rever nossas experiências de compra em consumo. Aqui construímos espaços para um marketing bem feito e genuíno, que aproxime do seu público-alvo, traga informações verdadeiras e relevantes a ajude o consumidor a resolver os seus problemas. Nosso acesso às informações faz com que tenhamos ainda mais autonomia na nossa jornada de compra.

Outra mudança, é que estamos olhando para comprar e incentivar o pequeno empreendedor e das empresas que apostam numa cadeia de suprimento mais sustentável, melhoram a experiência de compra e contratação. Óbvio que ainda buscamos preço e amamos um cupom de desconto (quem não né mores risos), mas certamente queremos apostar em empresas sérias, preocupadas com seus funcionários, fornecedores e clientes. É muito fácil descobrir a picaretagem nesse mundo tão conectado. Então é importante que as empresas saibam que gostamos de ter opção, qualidade e entregas rápidas mas também gostamos de compromisso, responsabilidade e verdade no discurso.

Do It Yourself e o primeiro pão feito em casa na vida

2019 foi um ano que vi todo meu círculo de amizades reclamando de estar cansado e querendo ficar mais tempo em casa – inclusive eu fui uma dessas pessoas. Aí veio uma pandemia e nos deu de presente um bom tempo pra ficar em casa e a verdade é que a maioria de nós se viu completamente bored nessa situação.

E, tendo que despender mais tempo em casa, o faça você mesmo acabou voltando com tudo na tendência e a gente tem se aventurado mais na cozinha, no artesanato e até consertando coisas em casa. Fazer o primeiro pão virou até notícia no G1 e boatos que se você não tem pelo menos um amigo que postou o primeiro pão no instagram, é porque esse amigo é você mesmo (digo por experiência própria pois me encaixo completamente nessa segunda opção). Tutoriais e conteúdos para colocar a mão na massa e até desenvolver um novo hobby são, sem dúvidas, indispensáveis nessa quarentena e já entraram pra lista de conteúdos de blogs, revistas e jornais.

Como isso muda nossa vida pra melhor?

Seja por entretenimento ou por desenvolver uma nova habilidade, fazer as coisas em casa resgata em nós uma conexão que perdemos nesses últimos anos: simplesmente abrir pacotinhos e ter tudo instantâneo. Eu cresci no interior e vim de uma família grande e sem muita grana, onde levar todo mundo pro restaurante, pedir delivery e sair comprando tudo que via pela frente definitivamente não era um opção. Esse movimento me faz ver muita gente se reconectando com as suas relações familiares, com o relacionamento que temos com a comida, redescobrindo cheiros, texturas, improvisos.

Outro ponto, é ver novos empreendedores nascendo aqui… de venda de comida caseira a máscaras de proteção, estamos buscando alternativas para não ficar parados e até quem sabe, fazer dos nossos hobbies uma fonte de renda.

E falando em conteúdo… educação online.

O sistema educacional, formal e informal, certamente tem sido um dos grandes impactados por essa pandemia. Escolas e universidades que passaram anos discutindo a migração parcial ou completa de seus cursos para o modelo online se viram obrigadas a se reinventar rapidamente e estão buscando na tecnologia meios de estimularem, engajarem e ensinarem os seus alunos. Ferramentas como o Zoom que era famoso conhecido das reuniões corporativas virou um must have em casa celular e laptop dos estudantes, e velhos conhecidos da EAD como o Moodle e outros LMS (Learning Management Systems) ganham cada vez mais oportunidades no mercado.

E muito além da educação formal, atire a primeira pedra quem não se inscreveu em pelo menos um curso online até agora. Seja para aprender um novo idioma, uma nova habilidade, cursos de autoconhecimento e aprimoramento profissional, etc. Eu posso listar os meus pra vocês: por aqui tá rolando aulas de francês no Duolingo, certificação em SEO da Blue Arrais Academy e a Ciência do bem-estar no Coursera.  (e continuo aceitando indicações, viu?).

Como isso muda nossa vida pra melhor?

Durante a quarentena alguns de nós perdemos nossos empregos, ou nos vimos entediados e ansiosos por estarmos em casa, descobrimos tempo sobrando nessa “sossegada de facho” por livre e espontânea pressão, e até mesmo nos sentimos inspirados por finalmente termos mais tempo em nossas casinhas. Independente de qual seja a sua motivação, vejo que aqui temos uma grande mudança no que diz respeito às nossas forma de aprendizado e sistema de ensino.

Se antes já era possível aprender (quase) qualquer coisa do sofá da nossa casa a um custo (quase) zero, hoje estamos nos questionando cada vez mais a necessidade do nosso modelo quadradinho de educação.

Eu que sempre fui crítica do modelo tradicional de ensino, acredito que a pandemia nos ensinará que flexibilidade cognitiva é, sem dúvida, a habilidade imprescindível desse século e aprender rápido e se adaptar a novas situações, é chave para sobrevivência e sucesso.

Btw, o Gabriel Costa (Mineiro) escreveu um artigo detalhado sobre como hackear o processo de aprendizagem que eu recomendo demais pra essa quarentena (conteúdo tão rico que vale como curso online, viu!).

Solidariedade e responsabilidade social.

Os cases de empresas que apostaram (e ainda estão apostando) e fazer a sua parte como agentes de mudança, propiciando apoio e suporte seja para quem tem menos recursos, para quem está trabalhando na linha de frente ou para melhorar a situação de crise, tem voltado a despertar nossa atenção e nos tornar mais favoráveis a consumir daqueles que estão preocupados em causar impacto positivo em meio a tanto caos. E o mundo tá tão ferrado nesse momento, que tem espaço pra todo mundo – do pequeno ao grande – dedicar um tempinho para fazer o bem e colocar seus 20 cents na vaquinha de contribuição de um mundo melhor.

Só pra citar, vai aí alguns exemplos de empresas e iniciativas que achei muito legais a acompanhei e que pode até te inspirar a fazer sua parte também:

Isso só pra dar algumas ideias. O que pra mim fica claro é que não importa seu porte ou segmento, você sempre terá algo para retribuir para a sociedade. Algumas dessas ações envolvem pesados investimentos, o que não é uma realidade para toda empresa. Mas algumas delas envolvem só boa vontade e um pouco de mão na massa mesmo.

Como isso muda nossa vida pra melhor?

Apoiar causas “só pra sair bem na fita” e se aproveitar da desgraça alheia pra se promover, está cada vez mais rapidamente sendo desmascarado. Se essa for sua ideia, desista logo. Por outro lado, vemos cada vez mais empresas sendo responsáveis socialmente e gerando accountability em causas que fazem sentido para o negócio e ajudam outras pessoas também, incentivando um ecossistema mais saudável e apostando nas relações de ganha-ganha como meio de impactar positivamente a comunidade onde estão instaladas.

Uma das minhas chefs de cozinha favoritas, a Asma Kahn certa vez disse que “estando em um lugar de privilégio você tem o dever de elevar os outros”. Eu acredito demais nessa fala e fico muito feliz em ver que cada vez mais pessoas pensam desta forma. Sabemos que as consequências trazidas pelo coronavírus serão ainda maiores do que já estamos vendo, e que como indivíduos não vamos poder resolver todos os problemas do mundo. Mas e se fizemos nossa parte e ajudarmos dentro das nossas possibilidades, onde os nossos braços alcançam? Mais do que nunca, temos a chance de genuinamente apoiar e criar uma economia mais colaborativa, solidária e criativa. Não podemos perder isto de vista.

A busca pelo autoconhecimento, autodesenvolvimento e bem-estar

Eu sempre fui conectada com esses temas. Já fiz mapa astral, sessão de coaching, thetahealing, terapia convencional, yoga, exercícios energéticos, estudo da consciência e meditação, sem falar do meu compromisso com exercícios físicos que fazem parte da minha rotina, depois de um diagnosticado transtorno de ansiedade.

Sim, sou um pouco freak pelo assunto (manda indicação 2). Mas eu nunca li tanto postblog, ouvi podcast ou recebi tanta newsletter sobre o tema como agora. Embora esse tópico já estivesse tomando bastante força nos últimos anos onde ansiedade, depressão e burnout tem sido vilões já nem tão escondidos assim, de repente nos vimos isolados, praticando distância social e o confinamento veio como uma bomba na nossa saúde mental.

E tantas recomendações e a pauta em voga faz muito sentido para o momento. Pode ser que você não tenha nenhuma experiência no assunto, mas se você ainda não experimentou 10min de pausa no dia para alguns alongamentos na yoga ou uma breve meditação, eu fortemente recomendo. Aliás, uso dois apps que gosto muito e faço um jabá gratuito aqui: Down Dog pra yoga e Insight Timer (indicado pela minha sócia mais meditadora do mundo, Cáh Morandi).

Terapia online tem sido outra grande aliada desses dias obscuros, e a busca pelo termo no Google só aumenta desde do início da pandemia. Teve até quem juntou a terapia online com responsabilidade social, como é o caso da Escuta Aqui, plataforma que não só te conecta com psicólogos como a cada consulta paga uma outra consulta é doada para atendimento social de quem não tem condições para pagar. Eu sou adepta da modalidade há quase dois anos recomendo fortemente.

E nesse combo do bem-estar ainda entra a rotina de exercícios físicos indoor. Já vi stories de amigo correndo dentro do apê, sendo marombeiro, fazendo aula de dança. “Mens sana in corpore sano sem dúvida está mais em evidência do que nunca e acredito que abrir mão desta máxima no pós-quarentena vai ser quase impossível.

Como isso muda nossa vida para melhor?

Acho que esse tópico se responde por si só. Fomos OBRIGADOS a desacelerar. E vimos que a terra continua a girar, mas que nós somos mais frágeis do que imaginávamos. Cuidar do nosso corpo e da nossa mente tem sido ingrediente fundamental da nossa sobrevivência.

Do “home-office é desculpa para ficar em casa” ao compartilhamento de boas práticas de gestão de times.

De todas as mudanças que estamos presenciando, creio que essa é uma das mais significativas e não tenho dúvidas que com a pandemia veio também a necessidade em repensarmos nossa forma de trabalho. Os grandes escritórios, empresas com centenas de pessoas, estações de trabalho apertadas, 3h de trânsito pra chegar no trabalho… essas coisas caberão no nosso futuro breve?

Se antes achávamos que home-office não funcionava e era desculpa pra folgar no trabalho, hoje estamos acompanhando lives, e-books, dicas no instagram e podcasts de como ser mais produtivos, compartilhando ferramentas de gestão, boas práticas de liderança e muito mais. Gestores não tiveram opção e hoje manter cada um na sua casa é a opção mais segura para boa parte das empresas de tecnologia, consultoria, agências e serviços não essenciais.

Como isso muda nossa vida para melhor?

Quando falamos de home-office, falamos de uma camada privilegiada da sociedade, sabemos disso. Mas essa camada privilegiada ainda se via presa em modelos tradicionais de longas horas de trabalho dentro de empresas coloridas com agendas apertadas e exigência de “alta produtividade” muitas vezes medida pelo tempo na empresa e não pelas entregas feitas pelas pessoas.

Ainda estamos num período de transição e muitos dos meus amigos e colegas têm contado como têm trabalhado em dobro durante essa quarentena. É entendível pensando que estamos nos encontrando nesse modelo. Entretanto, vejo que temos oportunidades imensas aqui, seja em soluções de tecnologia, gestão, metodologias, etc para transformar nossa relação com o trabalho e onde o home-office não será mais um benefício de “startups cool” e sim uma modalidade natural de trabalho.

A lista ainda é longa. Não quero me alongar nesse artigo que ainda poderia aprofundar mais em cada um dos tópicos e trazer mais exemplos. Sinto que finalizo ele em dívida com o leitor, ao passo que sei que essa é uma discussão que está apenas começando.

Não temos ferramentas para prever o futuro. Mas temos a história para contar como fomos no passado, a tecnologia para ajudar a construir os próximos passos e o conhecimento que não tínhamos antes para escrever os próximos capítulos. Não somos hipócritas em dizer que tá tudo bem. Não. Não tá mesmo.

Ao mesmo tempo que esse texto tem o intuito de trazer exemplos “positivos” que essa quarentena nos trouxe, temos a ciência e sabemos que nem todo mundo pode ficar em casa. Nós sabemos que ficar em casa pode ser sinônimo de violência para mulheres, desemprego para famílias, dificuldades financeiras. Sabemos também que muitas pessoas sequer tem a possibilidade de ficar em casa e estão correndo risco alto de contaminação, e até mesmo outras consequências ainda mais doloridas, das quais sequer fazemos ideia.

Nossa intenção aqui não é fechar os olhos para esse cenário, mas olhar para uma pequena parcela onde conseguimos ver esperança de um futuro melhor.

Além disso, adoraríamos ouvir a sua opinião. Como você acha que a nossa vida vai mudar pós COVID-19?

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Escrito por:

Débora Brauhardt
Débora Brauhardt
Especialista em Gestão da Criatividade e Inovação e mais de 12 anos de carreira em estratégias de negócios, marketing, customer success, gestão e internacionalização em empresas como Parque Tecnológico Itaipu, Resultados Digitais e Octadesk.